Paquetá. Ou: do futebol como arte em si.
Importa pouco se uma arte é "efetiva". Um predicativo semelhante pertence ao campo da indústria e da caça, não ao da arte. Aliás, pertence-lhe, mas por analogia: efetividade relativa. Todo efeito da arte é, assim, imprevisto, não há "efetividade" em ponto grande nela.
O escritor esquece o que planejou (nos seus cadernos e agendas) perante a obra terminada - porque nada há sem a escrita, mas tudo se arranja sem o caderno, que é serviçal e não chega a senhor de nada. O resultado dum grande drible e dum flair fascinante não é a vitória de 4 a 0. E assim caminha Paquetá. Como um avião de (da esquadria da fumaça), ou como a rainha, que faz menos peças que a torre, e que se não ganha não deixa de ser a mais bela em jogo.
Penso que devamos nos explicar com menos generalidades, guardadas as devidas diferenças do xadrez para a arte feérica. É que este blog crê que um clube não possui compromissos nenhuns com o placar. Nem o seu artífice, o jogador, tem para com ele relação empregatícia, grau de serviço, carteira assinada, enfim, não bate ponto nem depende de suas ordens. O placar não dita regras, apenas co-labora com o jogo, ele o serve. É serviçal, nunca chega a senhor.
Repito, o resultado dum grande drible, dum fascinante flair, duma grandiosa jogada não é o resultado de 4 a 0. Uma esquadra intermediária o conseguiria (com menos espalhafato, e provavelmente com menos futebol), mas tudo concorre para o bem da arte no coração dos que não se escravizam a resultados, não dão pitis aos quatro ventos, não lançam invectivas conta a derrota. Só há uma derrota na arte, a feiúra.
Só há uma derrota no futebol, o futebol-placar, o futebol-resultado.
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